TREMOR
- Sábado, Dezembro 19, 2009, 20:00
- Cidade a Tossir
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A Terra tremeu. Baltazar pensou que Branca tinha encontrado um amor com o qual se rebolava no rés-do-chão, fazendo tremer com seus peitos ameloados e suas nádegas-melancia os pilares da Terra. O pombo Benjamim mostrou alguma agitação, assim como agitado ficou o coração de Baltazar. Mas a causa da agitação era outra.
O pombo não suportava a sinfonia de roncos e gorjeios, o chilreio e a chinfrineira de galinhas a cacarejar, de patos a grasnar, de leões a rugir, de bezerros a mugir, de burros a zurrar, de cães a ladrar, de doninhas a chiar, de macacos a guinchar, de cabras a berrar, de borregos a balir, de gatos a miar, de grilos a cantar, de hienas a uivar, de pintos a piar, de moscas a zoar e mosquitos a zumbir, de papagaios a palrar, muitos, tantos, papagaios a palrar que se faziam ouvir estrondosamente na torre erguida no centro centralíssimo da rotunda recentemente inaugurada. Vinte e quatro parcas horas passadas sobre o evento, e já a população se insurgia contra o ruído insuportável que dali surgia para logo chocar contra as paredes das casas, contra os ouvidos dos passeantes, contra o corpo dos seres anónimos, contra a alma, contra o nervo, de todos os indivíduos. Nada a fazer, o artista não permitia que retocassem a sua obra-prima, nem para dali tirarem um periquito que fosse, sob pena de processar tudo e todos, reivindicando incalculáveis e pesadíssimas indemnizações por danos irreversíveis naquele fulcral exemplo da criatividade humana. O pombo Benjamim não andava nada satisfeito com a nova banda sonora da cidade. Era um pombo que apreciava uma leitura concentrada do mundo, uma leitura crítica e afinada da realidade. Todo aquele ruído poluía-lhe o espírito, desconcertando-o e desconcentrando-o irremediavelmente. Entretanto, o coração de Baltazar não parara de palpitar pela vizinha do rés-do-chão. Nunca ninguém fora tão disponível e prestável para com Baltazar, o que o deixara numa amargura de não se ter em si à qual é costume associarmos estados de assolapada paixão. Tudo lhe parecia perfeito: ele, Baltazar, de mão dada com Bianca ou Branca ou lá o que era, e seu pombo Benjamim fazendo-lhes sombra, num passeio romântico pelas 70 x 7 rotundas sem cruzamento que havia na cidade. Escreveu-lhe um poema: da tua fruta farei a salada / com que alimentarei a fome / que me come. Rasgou o poema.












