Cannes: começou ontem, não só o festival anual de cinema, como o apocalipse da 7ª arte que não é movida a televendas

cartao rafael contra Cannes: começou ontem, não só o festival anual de cinema, como o apocalipse da 7ª arte que não é movida a televendasCONTRA PICADO/GF – A sensação que eu tive ao ver o cartaz deste ano do festival foi a mesma de estar num ringue com a selecção russa de luta livre, de braços amarrados e sapatos de cimento, com corvos esfomeados a comerem-me a pele, enquanto centenas de colunas wi-fi passavam o fórum de futebol da TSF. Já nem nos nossos amigos mais chegados podemos confiar. Depois de um ano em que “A Turma” de Laurent Cantet brilhou, tirou nota positiva e ainda nos evitou de ir a uma oral, este ano o festival “menina dos meus olhos” prostituiu-se. Será o filme americano de animação “Up”, da Pixar, que abrirá as hostes de Cannes este ano. É como uma facada nas costas. Et tu Brutus? O local que me abriu os olhos para filmes como “Elephant” de Gus van Sant ou “Dogville” de Lars Von Trier deixa-se assim vender por meia dúzia de balões, um velho e um miúdo vestido de escuteiro? Agora sim sabemos que a crise é grave.

Quando Cannes tem de abrir portas ao lado “comercial e industrial” do cinema sabemos que não há sub-prime que nos valha

Quando Cannes tem de abrir portas ao lado “comercial e industrial” do cinema sabemos que não há subprime que nos valha

Quando Cannes tem de abrir portas ao lado “comercial e industrial” do cinema sabemos que não há subprime que nos valha. Não havia mais cinema de animação que abrisse o evento e não tivesse um “R” de marca registada tatuado no rabo? Um outro “Les triplettes de Belleville”? Um outro “Persepolis”? Um qualquer desenho feito pelo Antonioni num guardanapo de restaurante serviria para mim. Relembro que foi este mesmo festival que em tempos revelou e consagrou ao mundo os “400 Golpes” de Truffaut (Amén). Agora os golpes são outros, são dados na minha pessoa e são encabeçados por nomes como Quentin Tarantino. Um cineasta que têm bases para ser genial mas cinematografia para ser asqueroso com palavrões à mistura. A maior obra deste homem é “Pulp Fiction”, um filme medíocre que nunca teria visto a luz do dia se o montador não fosse disléxico e não tivesse trocado as cenas depois de uma ressaca mal curada. Et mesmo tu Brutus? Isto só prova que tudo aquilo em que acreditávamos está a morrer. Um rapazinho vestido de escuteiro de cada vez. Uma casa puxada a balões de cada vez.

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